Esse vinho tem gosto de quê?

Atualizado: 31 de Jul de 2019


“Não entendo nada de vinho, e agora?”


Isso é algo comum em muitos turistas que visitam a região e dá um certo sentimento de intimidação: estou na região que fabrica os vinhos mais famosos da França e não entendo nada de vinho. E agora? Vou beber e passar vergonha!


Como diriam todos os borgonheses com quem eu tenho contato: “se você bebe e gosta é o que importa”. Tenha isso em mente durante a sua viagem e aproveite!


Agora, sendo moradora local é um pouco mais complicado e eu vou contar um pouco das minhas experiências pessoais, já que eu também vim para cá a primeira vez como turista e também tinha esse receio.


Hoje depois de 2 anos morando na Borgonha me sinto mais à vontade, por exemplo quando eu estou com pessoas que simplesmente bebem e apreciam, falam uma ou outra coisa sobre o vinho eu fico bem à vontade, bebo, provo com moderação, dou risadas, participo, converso, aprendo com quem sabe mais, ou seja, me sinto super bem!


Agora meu amigo, minha amiga, quando eu estou com pessoas que passam vários minutos discorrendo cada nuance do vinho, cada aroma, cada sabor, cada cor da caixa de lápis de cor da Faber Castell, cada característica de cada parcela de vinhas que temos na região e cada centímetro de solo em relação ao seu calcário e modo de produção, eu travo. Não consigo engolir nem água! Fico quieta, fico na minha e me dá uma vontade de ir para casa!

Talvez seja uma reação de sentimento de inferioridade? Ou talvez por que é tudo tão cheio de detalhes que para mim acaba ficando chato? Perde a naturalidade? Porque sou brasileira e não estamos acostumados a pensar em cada sabor que comemos ou bebemos?


Ou porque francês gosta de discutir tudo? Tudo isso junto?  Não sei. Mas é por isso que no meu blog e vídeos eu tento colocar da forma mais leve o possível tudo que aprendo a cada dia sobre a região e seus vinhos.


Aliás, falar de vinho é como falar de arte: pode ser legal. Falar dos quadros e esculturas que a gente viu em tais exposições, lugares, países, conhecer um pouco desse mundo é interessante, o brasileiro se interessa muito por arte e quer aprender. A prova são as filas quilométricas em São Paulo quando há grandes exposições. Lembram do sucesso que foi a exposição “Brasil 500 anos”?! Ou o sucesso que é Inhotim.


Agora vai escutar alguém falar de cada nuance de pincelada do quadro. Cada sentimento abstrato de cada cor. Cada onda de fúria ou de insanidade nas curvas ou retas daquela escultura. Vai escutar isso para cada obra de arte de toda a exposição. Escutar como o artista criou, em que fase da vida ele estava, o que tinha acontecido com ele, seu processo de criação, para mim é interessante para poder colocar a obra dentro de um contexto.


Detalhes tão aprofundados como os que eu citei, para mim é complicado. Eu não sou esse tipo de público. O vinho pode ser comparado à arte.


Saber como ele foi produzido, se tem ou não pesticidas nas vinhas, se o ano daquela safra foi mais frio, mais chuvoso ou mais quente e como isso influenciou no seu sabor, para mim é interessante. Agora cada detalhezinho e passar 40 minutos discorrendo os detalhes daquela única taça e tendo mais outras 5 para beber e fazer a mesma coisa…ahhh meu amigo, eu perco a vontade de viver!! Para mim a alegria de curtir o momento vai embora!


E principalmente quando me forçam e dão lição de moral. Poxa, eu só quero curtir de boa. Só isso. Talvez no futuro eu mude de opinião e hábitos. Nunca se sabe. Uma coisa é certa: já mudei bastante desde o meu primeiro dia aqui.


Logo quando eu cheguei era muito comum eu escutar essa pergunta “o que você achou desse vinho?” Eu que não tinha o hábito de beber vinhos respondia a verdade “é bom, é gostoso”. Nunca menti. Mas não é essa a resposta que eles queriam ouvir. TODA vez eles me perguntavam algo específico como: o que você está sentindo? Você não está sentindo a framboesa? A trufa? O odor da adega?  E todos paravam e me olhavam esperando uma resposta. D E S E S P E R O.


Gente, eu nunca tinha comido uma framboesa natural na minha vida antes de mudar para cá. Como eu iria reconhecer o aroma ou gosto dela num vinho? Eu nunca tinha comido trufa ou sentido o seu forte aroma, só conhecia as de chocolate e eu tinha certeza que eles não estavam se referindo a elas. Odor de adega?? Eu nunca tinha entrado numa adega na minha vida!!!! E uma das vezes para fugir da pressão eu respondi: “felicidade. Eu estou sentindo felicidade”. Arranquei sorrisos, alguns “owwwwn” e me deixaram quietinha. Mal sabiam eles que eu só conseguia sentir cheiro de vinho e sabor de vinho!!


Hoje eu evoluí um pouco, ainda não sou expert, mas consigo identificar alguns aromas e sabores e sei quais são os vinhos da Borgonha da minha preferência. Mas em horas quando o bicho pega eu saco a minha arma secreta da “felicidade” e sempre funciona. Ufa! Mas procurem me entender e não me julguem mal: eu morava em SP na capital, trabalhava em empresa multinacional americana, estudava, ia a cinemas, teatros, saia com as amigas e nunca, nunca parava para pensar em cada sabor daquilo que eu bebia ou comia e beber vinho era só em ocasiões especiais ou para gerar aquele frisson de algo chic; e hoje eu moro no numa cidade de 5 mil habitantes no coração da Rota dos Grandes Vinhos Franceses e boa parte da família do meu marido e amigos trabalham diretamente e indiretamente com vinhos. A economia local é o vinho, tudo gira em torno dele. Se eu morasse em Dijon seria um pouco diferente porque lá a cultura do vinho é mais amena. Mas em Nuits Saint Georges terra de viticultores, onde eu abro a janela e a paisagem é um vinhedo, é complicado não respirar o vinho e tratá-lo com um ser vivo.


Então meu amigo, para você que virá visitar a Borgonha não se acanhe. Faça todas as degustações que você quiser, sem pressão, experimente no seu ritmo, peça uma coca-cola se quiser, mas aproveite a sua viagem do seu jeitinho. Curta cada pedacinho dela. A minha experiência, aventuras e às vezes desventuras, é de quem mora aqui e é diferente de um turista, mas como eu sei que vocês adoram saber essa parte eu vou contá-las para vocês em posts nessa categoria de “Minha Vida na Borgonha” no blog. Por isso eu dou todo apoio para vocês virem para cá sentir esse clima tão diferente do nosso e ver com os próprios olhos e sentir com o paladar como é a vida de um borgonhês da Rota dos Grandes Vinhos!


É uma sensação inesquecível, eu garanto!


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